Francisca Aguinelino do Nascimento, a Luzinete (ou Luza), nasceu em Mauriti (CE), distante 491 km da capital, Fortaleza, no dia 2 de maio de 1951. Filha mais velha do agricultor João Aguinelino do Nascimento e da dona de casa Antônia Luzia da Conceição, mais conhecida como Dona Tota, ela teve quatro irmãos e quatro irmãs. Família numerosa, como era bastante comum naquela época de poucos recursos e de muitas necessidades.
“A vida por lá não era nada fácil. A gente tinha de trabalhar na roça de sol a sol, principalmente os homens. Mas sempre sobrava trabalho para as mulheres também. Muito trabalho, aliás”, lembrou ela.
Aos 19 anos, ela se mudou de São Paulo para o Mato Grosso, depois de se casar com o conterrâneo José Milano do Nascimento em Pauliceia (SP) no dia 30 de maio de 1970, pois parte da família do esposo (mãe e três irmãos) já estava morando e trabalhando há alguns anos na zona rural de Rondonópolis, na localidade chamada Pequi.
“Eu me lembro de tudo isso muito claramente, como se isso tivesse acontecido há pouco tempo. Nós chegamos na cidade no dia 4 de junho de 1970 com um quase nada de bagagem, mas muita vontade de vencer nessa nova etapa da vida que a gente estava iniciando numa terra desconhecida, mas muito promissora”, disse ela.
Ela e o esposo permaneceram na região do Pequi até 1972, quando o casal resolveu se mudar para a cidade, motivado pelo convite do cunhado/irmão Valdemar, que havia trocado a vida no campo por pequenos negócios autônomos, conhecidos como ‘marretas’, e estava prosperando como feirante. Na época, a maior e melhor feira da cidade acontecia na Praça dos Carreiros.
Luza e José então se mudaram para o bairro Cascalhinho, onde eles pouco a pouco foram se habituando à nova rotina da vida no município. Logo a família também teve de ir buscar água no então caudaloso rio Arareau e começou a crescer. No total, eles tiveram sete filhos, sendo cinco deles nascidos vivos: Cleide (que faleceu em 2015), Carlos, Claudineia, Claudilene e Claudinei.
Dos filhos, o que mais se destacou foi Carlos, mais conhecido como Boró, ou Borozinho, que foi um jogador de futebol bastante habilidoso e promissor, tendo atuado em diversas partidas oficiais pelo Tigrão da Vila Aurora e pelo União, bem como por equipes profissionais de outros estados como a do Comercial (MS) e a do Botafogo (SP), além de times de menor expressão em São Paulo e Goiás.
No entanto, por causa de problemas físicos, ele decidiu abandonar o sonho de seguir carreira nos gramados no final da década de 1990. Superada essa fase, ele trabalha atualmente como autônomo.
“Não é só porque ele é meu filho, não, mas ele era muito bom jogador. Um craque de bola na opinião de muita gente, inclusive do pai dele, que era um daqueles palmeirenses muito exigentes”, revelou.
O marido dela, aliás, além de ter trabalhado como feirante por algumas décadas, era um ótimo negociador, tendo feito muito dinheiro também com a compra e venda de carros e de casas, conseguindo um patrimônio considerável. Infelizmente, no dia 8 de agosto de 2012, ele foi vítima de infarto na Rodovia do Peixe, enquanto voltava com a esposa Luza do rancho da família.
“Aquele foi um dos piores dias da minha vida. Doeu muito saber como tudo aconteceu. Foi tudo muito rápido e inesperado. A cada ano que passa, só aumenta a saudade que ficou dos bons momentos e até das dificuldades que nós dois vivemos juntos. Ele foi um ótimo filho, irmão, marido, pai e avô. Um homem e tanto!” confidenciou.
Perguntada sobre a Rondonópolis que encontrou ao chegar aqui, nos anos 70, e a que vê agora, mais de 50 anos depois, ela foi categórica:
“É outra cidade, sem dúvida! Totalmente diferente, mas não necessariamente melhor em alguns aspectos, apesar de todo o desenvolvimento que ela tem agora. O trânsito piorou muito, a violência aumentou e a pobreza também”, disse.
“Às vezes eu me pego pensando em que mundo os meus netos vão viver. E olha que hoje eles já são oito, mais uma bisneta. Os dias parecem mais estranhos hoje. Alguns deles são muito quentes ou com céu poluído. Sinceramente, eu acho que há muito asfalto e poucas árvores pela cidade também. Outra coisa: quando eu era jovem, não havia tanta tecnologia como agora, mas aquele pouco que a gente sabia parecia ser suficiente. Hoje em dia, quanto mais você sabe parece que mais você precisa saber! E ainda por cima tem essa tal de inteligência artificial incomodando muita gente por aí, inclusive a mim…”, finalizou.
Fonte: A Tribuna MT
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