Rondonópolis, a cidade de duas vidas

O povoado nasceu junto às margens do rio, no início da Avenida Marechal Rondon, em direção à futura Praça dos Carreiros

Hoje, 10 de dezembro, Rondonópolis completa 72 anos de emancipação político-administrativa. Além de feriado, as pessoas se perguntam: – e daí? O caso é que, o descaso delas é tamanho que nem ousam perguntar-se o porquê que a cidade chegou ao patamar de 264 mil habitantes; de como a cidade se agigantou em tamanho e extensão com a abertura de novas avenidas, de ruas e de praças e bairros esparramados em um desenho torto, alinhavado junto às encostas do rio Vermelho, do ribeirão Arareau e em torno do entroncamento das rodovias 163 e 364.

O quadrilátero central ficou pequeno e teve que se render às novas realidades da periferia e ao burburinho de inúmeras lojas, magazines e shopping, carrocinhas de churrasquinho, galpões industriais, condomínios de moradia e, principalmente, junto aos grandes edifícios, que crescem em número e em verticalidade.

E o trânsito com mais de 200 mil veículos em circulação… enlouquece àqueles que se acostumaram transitar em vias calmas de outrora – mas, que o trânsito da cidade é de tirar o fôlego e a paciência de quem quer que seja, ninguém pode negar!

A CIDADE NÃO É FRUTO DO ACASO

O fato é que, salvo exceções, o morador não se importa em querer saber como a cidade de Rondonópolis floresceu, quando ela foi ocupada e povoada.

Já respondendo – mesmo sem ter sido perguntada -, digo que o processo de colonização, crescimento e urbanização de Rondonópolis não se deu ao sabor do acaso, mas é fruto de luta e trabalho árduo de pessoas que vieram para um fim de mundo, um cerradão no meio do nada e que aqui permaneceram apesar das adversidades.

São esses homens e mulheres os heróis anônimos que representam grande parte da força de construção e da história de Rondonópolis, são eles: migrantes mato-grossenses, nordestinos (da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, do Maranhão), paulistas, mineiros, goianos, paranaenses, catarinenses, gaúchos ao lado de estrangeiros libaneses, árabes, japoneses, espanhóis, sul-americanos e outros – hoje eles já abrigam descendentes até de quarta geração, como os meus netos, por exemplo.

A CIDADE NOS ANOS 1950

Na década de 1950 a cidade era acanhada e se assemelhava a uma vila perdida no cerrado. Havia poucos moradores, ainda não existia a ponte sobre o rio Vermelho e a balsa fazia o ir e vir do trânsito local e dos viajantes.
O povoado nasceu junto às margens do rio, no início da Avenida Marechal Rondon, em direção à futura Praça dos Carreiros.

Ao longo da única avenida desenvolvia-se o comércio e o restante dos moradores vivia ainda com costumes rurais, sem se preocupar com o desenvolvimento urbano local – eram comuns as criações de porcos, galinhas e vacas se espalharem pela cidade (parece coisa de outro mundo, não é mesmo?)

SENTA QUE LÁ VEM HISTÓRIA

É importante saber que, a história de Rondonópolis começa antes de seu nome existir e, antes até, dos documentos que oficializaram a construção do lugar. Por milhares de anos, a região viu a presença de povos pré-históricos e por duzentos anos foi território dos Bororo, que se movimentavam ao longo do rio Vermelho e que deixaram marcas de sua presença ancestral.

Ainda no final do século XIX, a região era apenas um ponto de passagem feita por viajantes, garimpeiros e faiscadores. Já no início do século XX, a região começou a receber migrantes vindos de Goiás, de Cuiabá e de outras partes e regiões de Mato Grosso.

Eram famílias pobres que carregavam sonhos, ferramentas simples e o desejo de recomeçar. Eram famílias em busca de terras férteis, água e novas oportunidades que se instalaram às margens do Rio Vermelho, ponto estratégico para viver e produzir riqueza.

Entre essas pessoas estavam nomes como José Rodrigues dos Santos e Jerônimo Lopes Esteves – líderes que se tornaram referências na formação do povoado.

Por volta de 1915, junto ao rio Vermelho morava cerca de 70 famílias com certa organização política, econômica e preocupação com as primeiras letras. Aquele pequeno núcleo populacional formado espontaneamente ganhou reconhecimento oficial em 10 de agosto de 1915, a partir da promulgação do Decreto Lei nº 395 de 1915 que estabelecia uma reserva de 2.000 hectares para o patrimônio da povoação do rio Vermelho.

Esse decreto foi assinado por Joaquim da Costa Marques, Presidente de Estado do Mato Grosso, e é o primeiro passo administrativo, o marco formal para o nascimento da futura cidade. Com registro de identidade oficial confirmado (10 de agosto de 1915) pode-se regulamentar a data de fundação de Rondonópolis, que aconteceu através da Lei Municipal 2.777 de 22 de outubro de 1997.

Pouco depois, em 1918, o deputado Otávio Pitaluga organizou o desenho urbano da localidade e teve aprovação para alterar o nome da Povoação do rio Vermelho para: Rondonópolis, em homenagem ao tenente Cândido Rondon, que passou a ser o PATRONO da cidade – Rondon, responsável pela instalação das linhas telegráficas entre Mato Grosso e Amazonas.

Então, no ano de 1920, Rondonópolis passou à condição de distrito de Santo Antônio do Leverger e parecia que o seu futuro caminhava para o progresso, a saber: o crescimento e a emancipação política. Porém, não foi bem isso que aconteceu e Rondonópolis teve que esperar ainda por algumas décadas para florescer e acontecer.
A CIDADE QUE NASCEU DUAS VEZES

Apesar do nome nobre – Rondonópolis – e do território fértil, os anos que se seguiram foram muito difíceis. Entre as décadas de 1920 e a de 1940, o distrito enfrentou enchentes, epidemias e até conflitos entre moradores.
A descoberta de diamantes na vizinha Poxoréu desviou moradores e investimentos, deixando a região quase estagnada.

Nesse período, o distrito perdeu população e importância: a vida ali se manteve, mas de forma silenciosa, tímida, quase suspensa, um tempo de incertezas e de quase abandono.

O cenário começou a mudar somente depois de 1948, quando Rondonópolis é inserido no contexto capitalista de produção como fronteira agrícola mato-grossense, resultado da política de Sistema de Colônias implantado pelo governador Arnaldo Estevão de Figueiredo.

Nesse período, o vilarejo apresentou indícios de crescimento demográfico com a chegada de pessoas impulsionadas pela promessa de terra, trabalho e prosperidade.

Esse novo fluxo populacional transformou o lugar: comércio, agricultura e pecuária, reacenderam a economia e fortaleceram a identidade da comunidade. Cada grupo acrescentou algo novo — um sotaque, uma receita, uma técnica de cultivo, um modo de construir casas. Rondonópolis renasceu como um mosaico cultural e econômico.

Esse segundo nascimento foi tão vigoroso que, no início dos anos 1950, já havia maturidade suficiente para reivindicar autonomia. E ela chegou em 10 de dezembro de 1953, quando a Lei Estadual nº 666 declarou a emancipação político-administrativa de Rondonópolis. Desligado de Poxoréu, o município conquistava não apenas um governo próprio, mas o direito de planejar sua expansão, suas estradas, sua educação, seu futuro.

Contudo, o “boom” do município passou a ser realidade só depois de 1970: com o advento do modelo agroexportador, da modernização do campo, da melhoria da malha viária e da concretização de políticas de incentivos fiscais do Estado.

Assim, a modernização agrícola transformou o campo, o comércio se fortaleceu e a posição estratégica entre as BRs 163 e 364 consolidou Rondonópolis como ponto essencial na logística brasileira.

Sua geografia contribuiu para tornar-se um entroncamento de mão-única que liga as regiões Norte/Sul do país e também para o escoamento da produção agrícola – fora isso, Rondonópolis é o portal da Amazônia e entrada para o pantanal mato-grossense.

E, desde 2013, quando os trilhos da ferrovia se tornaram realidade, eles desempenham a função de carregar sobre seus vagões o progresso de um futuro que hoje já é presente na vida de Rondonópolis.

A cidade cresceu, expandiu bairros, atraiu indústrias e tornou-se referência no agronegócio nacional. Onde antes havia apenas a calmaria de um rio, surgiram silos, escolas, hospitais, avenidas e passaram a circular milhares de famílias que ousaram sonhar e construir juntas a força do município.

Hoje, Rondonópolis é polo de desenvolvimento do Centro-Oeste, atende à demanda de consumo de outros 22 municípios da região Sudeste do estado; é a segunda cidade de Mato Grosso em demografia e exportação e exerce interessante influência no campo cultural.

Mas, a sua alma permanece fiel às raízes: um lugar que nasceu oficialmente em 1915, renasceu pelo esforço dos colonos nos anos 1940, se consolidou como município em 1953 e a partir da década de 1970 tornou-se gigante do agronegócio e destaque na produção industrial.

Uma cidade que, antes de crescer para fora, aprendeu a crescer para dentro — ao preservar a essência da hospitalidade, unir diferenças e se reinventar continuamente.

Rondonópolis é, portanto, uma cidade que nasceu duas vezes: a primeira, em decreto; a segunda, no coração de seu povo.

Sobre o aniversário oficial do município (feriado)

1957 – Lei nº 49/1957—, sancionada pelo prefeito Daniel Moura que declarou feriado municipal o dia 10 de dezembro (emancipação do município);

1967 – Lei nº 206/1967 alterou a “data de aniversário do município” para 05 de maio, dia do nascimento de Marechal Cândido Rondon, PATRONO DA CIDADE / Dia das Comunicações. Mas, na verdade quem mudou oficialmente a data para 5 de maio foi a Câmara Municipal (aprovando o projeto) e o prefeito Hélio Garcia apenas sancionou a lei. (Registro histórico na página da Câmara Municipal faz essa referência).

1972 — Lei nº 282/1972 revogou a lei de 1967 e declarou o dia 10 de dezembro como feriado municipal (ou seja, o prefeito Zanete Cardinal reconheceu o dia da emancipação como data oficial e de feriado) – data que permanece até hoje.

NÃO CONFUNDIR: 10 de agosto marca a fundação (povoamento/registro oficial como povoado), e 10 de dezembro marca a emancipação — são duas datas distintas para dois marcos históricos diferentes.

Assim, vamos hoje celebrar os 72 anos de Emancipação Político-administrativa de Rondonópolis, porque acima de tudo é um ato de respeito pela trajetória de sua população e um compromisso firmado com a preservação do que nos torna únicos.

Parabéns, Rondonópolis!

*) Luci Léa Lopes Martins Tesoro, Doutora em História Social pela USP, Autora de “Rondonópolis-MT: um entroncamento de mão única” – lllmt@terra.com.br

 

 

Fonte: A Tribuna MT
Crédito da Foto: Roberto Barcelos