Um grupo de cientistas apresentou à Superintendência de Vigilância em Saúde de Mato Grosso (SUVSA/SES-MT), em Cuiabá, os resultados de uma pesquisa estadual a respeito do aumento das taxas de abandono do tratamento de doenças de determinação social e dos fatores que influenciam na suspensão do processo terapêutico.
A pesquisa é fruto de uma iniciativa entre cientistas da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) e da Universidade Estadual de Mato Grosso (UNEMAT), que investigou entre os residentes do estado, novos casos de tuberculose, hanseníase e leishmaniose tegumentar (LT) no período de 2007 a 2022, e casos de hepatite B entre 2021 e 2023.
Estas enfermidades são consideradas de determinação social, uma vez que suas manifestações são influenciadas por fatores sociais, econômicos e ambientais.
Em um país marcado por uma extensa dimensão territorial e por desigualdades, algumas doenças se fazem mais presentes em áreas onde vivem pessoas em situação de maior vulnerabilidade, pois o acesso à saúde, saneamento básico, educação, moradia, entre outros aspectos, favorece o surgimento e disseminação destas doenças.
Em 2023, foi criado um comitê especial com representantes de diversos ministérios nacionais para pensar em esforços conjuntos para a eliminação de doenças determinadas socialmente.
Um dos objetivos da pesquisa foi compreender as condições que impactam no abandono do tratamento, geralmente oferecido gratuitamente na rede pública de saúde. O documento apresenta uma análise epidemiológica das características envolvidas, mas também sugere recomendações práticas à Superintendência de Saúde e aos gestores municipais.
Segundo a coordenadora do projeto, professora Letícia Goulart (UFR), os resultados sustentam o fortalecimento das políticas estaduais e podem orientar decisões estratégicas para reduzir o abandono terapêutico.
“Nosso compromisso é transformar evidências científicas em políticas concretas. Esses resultados indicam que a integração entre universidades, gestores e serviços de saúde é essencial para reduzir desigualdades e fortalecer o SUS em Mato Grosso”, explica a pesquisadora.
Para o professor da UNEMAT, Josué Souza Gleriano, a investigação reforça a função social das universidades públicas e fortalece o compromisso com o território e a pesquisa aplicada. “Este estudo é um exemplo de como a ciência pode orientar e abrir diálogos para fortalecer espaços de governança e aperfeiçoar processos de avaliação para a gestão”, afirma o pesquisador.
Ações estratégicas
O estudo analisou os dados disponíveis no sistema de informação de agravos de notificação e na Vigilância Epidemiológica do estado, revelando que, nos indicadores acumulados (2007-2022), as taxas de abandono do tratamento foram de 10,39% para tuberculose, de 10,60% para hanseníase, de 1,64% para leishmaniose tegumentar e de 2,93% para Hepatite B. O documento apresenta também quais os municípios de Mato Grosso que estão na área de alto risco para cada uma das enfermidades.
Com base nos resultados obtidos, os pesquisadores produziram um documento com um resumo das informações e a sugestão de ações estratégicas para diminuir os fatores associados ao abandono dos tratamentos.
As recomendações para os gestores envolvem a priorização dos usuários em situação de vulnerabilidade social, identificando e georreferenciando pessoas em situação de vulnerabilidade, tais como pessoas pretas e pardas, com baixa escolaridade, os coinfectados com HIV e pessoas que fazem uso abusivo de álcool.
Para atingir essa meta, será necessário estabelecer visitas estruturadas por meio de protocolos regionais para acompanhamento dos agentes comunitários e de equipes multiprofissionais.
A forma de abordagem deve ser humanizada de forma a buscar compreender sem julgamentos os motivos da desistência do tratamento. O agente de saúde precisa oferecer uma escuta qualificada na identificação de barreiras individuais (financeiras, geográficas, familiares, ocupacionais, estigma) e a redução de burocracias para retorno ao tratamento, evitando repetição desnecessária de exames e das consultas iniciais.
Neste sentido, sugere-se um agendamento flexível para consultas e liberação de medicamentos, o que pode evitar o deslocamento excessivo do paciente até o sistema de saúde mais próximo.
Além disso, as propostas indicam uma utilização consciente das tecnologias de acompanhamento, como o WhatsApp institucional, telemonitoramento, visitas domiciliares, entre outras estratégias, para lembrar os usuários da rede de saúde sobre consultas e orientações.
Os autores também propõem a ampliação nos dias e horários de atendimento nas Unidades de Estratégia de Saúde da Família para os municípios com alto risco, permitindo consultas em turnos alternativos para atender trabalhadores e populações de difícil acesso.
Eles sugerem a capacitação continuada e formação de parcerias entre agentes de saúde, lideranças comunitárias, religiosas, organizações sociais, redes de apoio, CRAS e CREAS para mediação cultural e redução do estigma, executando campanhas regionais.
Próximos passos
O encontro marcou a primeira divulgação dos resultados com a Superintendência de Vigilância em Saúde. O próximo passo é organizar uma agenda para que os pesquisadores apresentem os resultados e as propostas de ação para gestores e órgãos colegiados do estado, fortalecendo um diálogo interinstitucional a respeito dos resultados e recomendações propostas para ampliar o sucesso terapêutico e o controle destas doenças.
O estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde (DECIT/MS). A equipe reuniu docentes, pesquisadores e estudantes da UFR e UNEMAT.
Fonte: A Tribubna MT
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