'Não há igualdade ou liberdade, pois há risco em ser mulher', afirma defensora

Mesmo com os números alarmantes, muitas mulheres não conseguem perceber que são vítimas de violência doméstica

Nos primeiros 8 meses de 2025, Mato Grosso já registrou 33 feminicídios, 33 mulheres que morreram nas mãos de atuais ou ex-companheiros, 33 famílias enlutadas e pelo menos 56 crianças sem suas mães. Mas o número não para de crescer, no último domingo (17), uma jovem de apenas 24 anos foi assassinada, à luz do dia, em um pesqueiro na cidade de Sorriso (420 km ao norte de Cuiabá). O ex-namorado não viu impedimento na medida protetiva que a mulher tinha contra ele e atirou 6 vezes, não dando chance de defesa à vítima. Ele foi preso horas depois, em um dos distritos de Boa Esperança do Norte e não demonstrou remorso ou arrependimento em seu depoimento.

Em tom debochado, afirmou que estava esperando 24h após o crime para se entregar, pois pensava que isso o livrava de ser preso, o que não aconteceu. Em 2015, a Lei do Feminicídio foi criada para combater o assassinato de mulheres por razões de gênero. A legislação qualifica o homicídio como feminicídio quando o crime é cometido em razão do sexo feminino, seja em contexto de violência doméstica, familiar, em menosprezo, ou discriminação à condição de mulher.

Em outubro de 2024, por meio de um projeto de lei da senadora Margareth Buzetti (PSD), entrou em vigor uma nova regra que tornou o feminicídio um crime autônomo e a pena passou a ser de 20 a 40 anos de prisão, maior inclusive do que as penas de homicídio qualificado, que variam de 12 a 30 anos.

Câmara de Cuiabá

 

A defensora pública, Rosana Leite Antunes de Barros, reforçou que um estado fincado no patriarcalismo, nutrido pela cultura do estupro e pelo machismo estrutural, faz com que a violência doméstica seja uma realidade na casa de diversas mulheres.

“É lamentável saber que nós, meninas e mulheres, crescemos envoltas a tantas violências. Mais de 90% dos casos que recebo no Núcleo de Defesa das Mulheres são de violência doméstica e familiar. Todavia, a violência tem sido muito grande em Mato Grosso pelo patriarcalismo, alimentado pela cultura do estupro e pelo machismo estrutural, ao qual somos vítimas. No estado, a violência doméstica é como uma ferida exposta e por isso, fazemos a divulgação das normas que fazem parte dos direitos humanos das mulheres, participamos de conselhos e comissões que tratam do tema, bem como de eventos e seminários pensados na temática”, declarou.

Mesmo com os números alarmantes, muitas mulheres não conseguem perceber que são vítimas de violência doméstica. Em outros casos o desafio é para serem ouvidas quando denunciam seus casos, o que agrava o cenário de medo, insegurança, dor sofrimento e morte.

“Penso que nós temos alguns desafios. É preciso que as mulheres se reconheçam como vítimas de violência quando se encontram nessa situação. É preciso que a Lei seja aplicada na integralidade, e que a sociedade dê crédito à palavra das mulheres. As estatísticas estão a nos externar, para que a sociedade possa ver e ouvir como as mulheres são lesionadas e mortas, por conta da violência de gênero. Credibilizar as mulheres é valorizar as respectivas vivências e historicidade”, argumentou.

Em Cuiabá, as vítimas de violência doméstica podem registrar boletins de ocorrência, pedir medida protetiva e são acolhidas pela Defensoria Pública. “Caso a vítima não queira e prefira uma medida protetiva de urgência, o Núcleo de Defesa das Mulheres poderá fazer o pedido, independentemente da lavratura de boletim. De qualquer forma, a mulher que necessite, será acolhida pelo núcleo. Orientada, não somente para acompanhamento processual, mas, também, para encaminhamentos como alguma outra Instituição ou Poder que ela necessite”, orientou a defensoria.

A profissional avalia que muitas das ações da sociedade são reflexos de uma infância turbulenta, que, atualmente, reforça a cultura do machismo, patriarcado e do estupro no estado.

“Em minha carreira como defensora pública, atuei no interior do estado, onde pude visitar presídios e cadeias, e conversar com mulheres e homens que se encontravam em situação prisional. Ali eu percebi que muitos haviam presenciado violência doméstica ou sexual na infância. Assim, fica visível que a violência contra as mulheres sai do 'quadradinho de casa', atingindo a toda a sociedade. Todo o Poder Público precisa compreender que é preciso incluir a pauta em todos os lugares. Fica difícil pensar em uma sociedade melhor, se não pensarmos em mudanças. Se a mulher precisa pensar na roupa a usar, na forma de se portar, por onde andar, e por aí afora, não há igualdade ou liberdade para estar em todos os lugares porque há risco em ser mulher”, finalizou.

 

 

Fonte: Gazeta Digital
Crédito da Foto:  Câmara de Cuiabá