Casa Estrela do Sul: O fim de uma era no comércio de Rondonópolis

Edielson e Gilson na frente da histórica Casa Estrela do Sul

Um dos comércios mais antigos da cidade está prestes a fechar suas portas. A pequena mercearia de secos e molhados “Casa Estrela do Sul”, administrada pelos irmãos Gilson Alves da Silva e Edielson Alves da Silva (Tula), chega ao fim de sua jornada, carregando consigo uma história de trabalho árduo, tradição e boas lembranças.

Raízes Baianas
A história dos irmãos Silva começa há várias décadas, quando seus pais, imigrantes da Bahia, vindos da cidade de Rui Barbosa, após um período de trabalho no chão goiano, chegaram à zona rural de Rondonópolis para trabalhar na lavoura próximo a entrada da Galiléia, entre Rondonópolis e São José do Povo.

O senhor Aprígio José da Silva, nascido em 1928, junto com sua esposa Laurinda Alves da Silva, nascida em 1925, já tinham um casal de filhos nascidos em Santa Helena, no estado de Goiás: Wilson José da Silva e Adair Silva Rocha. Trabalhando firme na terra, o casal foi agraciado com mais quatro filhos: Gilson Alves da Silva, Edielson Alves da Silva, Edson Alves da Silva e Marli Alves da Silva.

Com os filhos em idade escolar, viram na cidade uma oportunidade de oferecer um futuro melhor para eles e mudaram-se para Rondonópolis em 1967. Em 1971, compraram uma casa com um pequeno comércio na Avenida Marechal Rondon, que ainda era de cascalho, do senhor Abel Martins Paniago, iniciando assim uma trajetória no comércio local de muito trabalho para sustentar a família e garantir a educação dos filhos.

Acometido pela doença de chagas, seu Aprígio lutou bravamente por 14 anos e veio a falecer em 1987; dona Laurinda faleceu em 2022, aos 94 anos.


Gilson e Edielson

Um Comércio de Tradição
Desde muito jovens, Gilson com 14 anos e Edielson com 10, ajudavam no comércio, aprendendo o valor do trabalho e da honestidade e tomando gosto pelo ofício. Enquanto os outros irmãos foram estudar buscando outros caminhos, os dois permaneceram no comando do comércio.

A mercearia, que começou simples, logo se tornou um ponto de encontro da comunidade, conhecida não só pela qualidade dos produtos, mas pelo atendimento caloroso e familiar.

Era uma época em que um pequeno armazém ou mercearia vendia de tudo um pouco, entre secos e molhados, e os fornecedores atacadistas se concentravam nos grandes centros.
Rondonópolis não contava com grandes comércios; supermercados ainda não existiam na cidade. “Tínhamos a Casa Borges, A Cerealista e o Armazém Brito como os mais importantes, depois surgiram o Comercial Rio Negro, a Casa Moreira e o Supermercado Sol. Aos poucos, fomos formando uma clientela muito grande na zona rural e nos quatro cantos da cidade, que vinham comprar conosco os mantimentos do mês inteiro”, relembra Edielson.

Por seu lado, Gilson cita alguns dos atacadistas mais atuantes na região e que foram muito importantes no desenvolvimento do comércio em Mato Grosso, como: Armazém Martins, Alô Brasil, Casas Uberlândia, entre outros, que tinham a sede em Uberlândia e faziam a entrega em pequenos caminhões que rodavam por todo o Centro-Oeste.


Edielson na década de 80 na mercearia

Além da loja física, os irmãos também mantinham uma barraca na feira realizada aos sábados na Praça dos Carreiros. Transportando as mercadorias em uma carroça, eles vendiam seus produtos diretamente aos consumidores, sempre com um sorriso no rosto e uma palavra amiga. Era comum ver a clientela fiel levando suas compras pagas em dinheiro, em cheque ou anotadas em uma caderneta.

O Peso do Tempo
Agora, com o peso dos anos de trabalho nas costas e a sensação de dever cumprido, Gilson e o Tula, como é carinhosamente chamado Edielson, decidiram que é hora de encerrar esse capítulo de suas vidas. “Estamos cansados, mas com o sentimento de dever cumprido. A mercearia foi nossa vida, e ver o reconhecimento dos nossos clientes é a maior recompensa”, disse Gilson, emocionado.

O anúncio do fechamento trouxe um misto de tristeza e gratidão aos clientes, que se acostumaram a encontrar na mercearia não só produtos de qualidade, mas também um pedaço da história viva de Rondonópolis. É um local de comércio, mas também de encontros; é muito comum as pessoas irem lá apenas para um bom bate-papo com os dois irmãos.

“Tem clientes que chegam aqui e dizem que vão sentir nossa falta. São anos de amizade, de companheirismo, vivência no dia a dia; alguns choram e a gente chora junto, porque para nós também é um momento de nostalgia, pois são 53 anos vividos aqui construindo a nossa história”, declara Edielson.


O pai Aprígio e um tio deles, Felinto Alves de Oliveira

Um Legado Que Fica
O fechamento da mercearia marca o fim de uma era, mas o legado dos irmãos Silva certamente perdurará na memória da cidade. A dedicação e o carinho com que conduziram o negócio são exemplos de como o comércio pode ser mais do que uma simples transação – pode ser um vínculo comunitário e uma história de vida. “Uma palavra que define esse momento é gratidão. Eu encerro o trabalho aqui ao lado do meu irmão com o sentimento de dever cumprido”, afirma Gilson.

Enquanto eles se preparam para desfrutar da merecida aposentadoria, a cidade de Rondonópolis se despede com carinho e gratidão de um dos seus marcos históricos, lembrando sempre do acolhimento e do espírito empreendedor dos irmãos Silva.

E assim, mais uma página é virada na história de Rondonópolis, carregada de emoções, memórias e muito respeito por aqueles que ajudaram a construir essa trajetória e muito contribuíram com a cidade.




Fonte: A Tribuna MT
Crédito da Foto: Arquivo